A marca registrada de Bordeaux, o corte bordalês

O que é o corte bordalês?

A resposta rápida é:

Corte bordalês é o nome que se dá à combinação de uvas que entram na composição dos vinhos produzidos nas denominações de origem da região de Bordeaux, na França. No caso dos tintos, estamos falando de basicamente de Cabernet Sauvignon e Merlot. Em proporção menor, Cabernet Franc, e em ainda menores proporções, Malbec e Petit Verdot. Até o século 19 podia entrar no blend a uva Carmenére, mas hoje quase nenhum produtor usa. No caso dos brancos, a combinação inclui Sémillon e Sauvignon Blanc, além de gotas de Muscadelle.

Agora uma explicação mais longa:

Bordalês, amigos, é quem nasce em Bordéus, que é o nome que a região de Bordeaux recebe em português quando não está se falando de vinhos, claro! Porque quando o assunto são os vinhos, Bordeaux é um nome que poucos não associam com algumas das melhores marcas do mundo! A região fica junto ao Atlântico, no sudoeste da França, cortada quase ao meio pela Gironde, o estuário formado pelo encontro dos rios Dordognne e Garonne. Por isso costuma-se falar em vinhos da Margem Direita e vinhos da Margem Esquerda dos rios. No total são 119.000ha e 60 apelações. É a maior AOC da França. Produz pelo menos 2 bilhões de euros de vinho por ano, o que dá em média 900 milhões de garrafas, segundo as revistas especializadas. A imensa maioria dos vinhos produzidos são tintos, secos, mais ou menos encorpados, com taninos firmes. Em Bordeaux os números são sempre impressionantes, mas o que mais conta pontos para a fama da região é a diversidade, a regularidade e a qualidade da produção.

E isso torna a questão do corte bordalês ainda mais interessante.

Os vinhos de corte ou de 'assemblage', como os franceses chamam, e que compõem a imensa maioria dos vinhos de Bordeaux, provém de vários tipos de uvas, colhidas em vinhedos diferentes, e que são combinadas em proporções razoavelmente reguladas pelas denominações de origem, mas que permitem ao enólogo ou ao proprietário da vinícola muita margem para exercer seu conhecimento, sua intuição e sua 'arte'.

Merlot e Cabernet Sauvignon são as duas uvas mais comuns da região e isso não é um acaso, assim como a combinação clássica das duas para criar o 'corte bordalês' tradicional tampouco é gratuita. Em Bordeaux, as duas variedades, do ponto de vista do plantio, se comportam de modo complementar. Funciona mais ou menos assim: digamos que em determinado ano, chove muito no outono, a Cabernet sofre, o produtor coloca um pouquinho mais de Merlot no blend. Se, ao contrário, a chuva vem mais cedo, a Merlot sente e a Cabernet garante a qualidade da combinação. Os limites da 'assemblage', não são nem rígidos demais que impeçam essas adaptações nem tão flexíveis que descaracterizem os vinhos da região. Na prática, a beleza da produção de vinhos nasce justamente dessa combinação única de pragmatismo com arte.

Exemplos dessa flexibilidade são duas notáveis exceções. Os vinhos do Pommerol, na margem direita, em geral levam proporções maiores de Merlot, o que os torna mais adocicados, aveludados. O Château Petrus, por exemplo, foge completamente da regra: é 100% Merlot!!! Já em Saint-Émilion os produtores valorizam as Cabernets Francs, e isso contribui para sua elegância e leveza. Falamos lá em cima de variedade? É das incríveis possibilidades que esse modelo de produção cria que estamos falando! Do ponto de vista de um mercado de vinhos que hoje tem dimensões planetárias, esse 'jogo de cintura' também faz com que seja possível, pelo menos em teoria (diriam os mais puristas), produzir vinhos no estilo 'bordalês' em qualquer outra região do mundo, bastando usar as variedades corretas das uvas 'permitidas', ou seja, Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Malbec e Petit Verdot. E muitas regiões até andam caprichando na 'fórmula', como a Nova Zelândia, Austrália, África do Sul, sem falar na Califórnia, no Canadá, Chile e Argentina.

A enóloga Jancis Robinson, em um artigo publicado no Financial Times alerta para os perigos do excesso de regulamentação e incentiva a experimentação. Segundo a Master of Wine inglesa, nunca houve tanto espaço para experimentar (e aqui ela cita o exemplo de produtores de Rieslings em Bordeaux que sabem que vão precisar rotular seus vinhos, por melhores que sejam, com uma denominação genérica 'vin de France'). Quando o assunto é vinho, sobretudo em Bordeaux, qualidade é tudo, mas qualidade não precisa ser sinônimo de conformidade. Sim, o tema é, no mínimo, polêmico.

E como o que sempre fascina na produção de vinhos é a complexidade, o 'corte bordalês' é muito mais do que uma combinação prédeterminada de variedades de uva. O clima, o solo, a idade das vinhas, os cuidados no plantio, tudo interfere no resultado final. Um vinho 100% Cabernet aqui na América do Sul será completamente diferente de um vinho com a mesma uva nascido no solo de cascalho e areia bem típicos de alguns châteaux de Bordeaux. A magia do terroir conta, em cada gota! Pergunte para qualquer um dos mais de 3000 produtores de vinhos da região...

Além do corte bordalês, existem outros blends clássicos e que vale a pena conhecer. Leia mais sobre vinhos de corte aqui

Leia também sobre os Bordeaux Supérieurs, esses Bordeaux que passam longe dos châteaux, sem perder nada da qualidade e da riqueza de aromas e sabores!

E não deixe de se interessar pelos Crus Bourgeois, os vinhos que ficaram de fora da primeira classificação dos Bordeaux, são excepcionais e cabem no seu bolso!

Você encontra vinhos de Bordeaux, como o Château de Camarsac e o Les Granges dês Domaines Rothschild, na adega da RBG!

Resolvemos republicar este post para reunir aqui outros posts relacionados ao tema, mas, sobretudo, para não perder a oportunidade de mencionar o artigo de Jancis Robinson sobre a dificílima equação que envolve a regulamentação e a experimentação no mundo dos vinhos. Divirta-se!

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