Quanto tempo devo guardar esse vinho?

Muita gente me faz essa pergunta. Na verdade, ela é fruto da ideia de que os bons vinhos são sempre vinhos velhos. Num mundo obcecado pela juventude, os vinhos parecem guardar um segredo valioso: a idade faz com que eles melhorem, e melhorem e melhorem...cada vez mais!

Apesar do encanto dessa ideia, é preciso relativizá-la um tantinho: nenhum vinho dura para sempre e nem todos os vinhos melhoram com a idade, ao contrário, alguns já “nascem” prontos e devem ser consumidos o quanto antes. (Leia também uma outra conversa sobre esse tema: Guardar Vinhos: por quanto tempo?

Não é tão simples estabelecer esses limites entre novo e velho. Estava lendo o artigo na Decanter desse mês da Master of Wine, Natasha Nughes, sobre as vinhas velhas. Tudo que cerca a vinicultura está tão impregnado desse conceito de que o tempo é fundamental para produzir bons vinhos que no caso das vinhas velhas, por exemplo, a questão acabou virando estratégia de marketing. Não é bem assim. (Leia o excelente artigo da Decanter ou nosso post A Idade da Videira como Ingrediente Surpreendente de um Vinho).

De modo geral, como quase tudo que é vivo, os vinhos têm um ciclo de vida. Planejado e previsível. (OK, sempre existe um pouco de mistério quando o assunto são vinhos!) Nascem exuberantes, amadurecem e ganham complexidade, envelhecem e tornam-se...outra coisa!

Certa vez eu participava de uma degustação em Nuits-Saint-Georges, o anfitrião generoso mergulhando cada vez mais fundo na adega e tirando garrafas cada vez mais cheias de poeira. No final, estávamos no esconderijo que a família havia construído para preservar os tesouros durante a Segunda Guerra Mundial. De lá ele tirou um Gouges Nuits-Saint-Georges 1935. Imaginem um belíssimo vinho que tenha perdido toda, sua juventude e exuberância, todos os excessos! Sobram camadas e camadas de aromas e sabores infinitamente complexos, de surpreendente delicadeza!

Assim é o ciclo de vida de alguns vinhos. E, sim, são vinhos extraordinários! Longe de seguirem o padrão das coisas feitas para serem consumidas imediatamente, esses vinhos são feitos para durar 30, 40 anos, talvez mais. Vinhos assim são cada vez mais raros, mais caros, restritos a amantes do vinho com orçamentos ilimitados! Mas sempre vão existir!

Os fatores que tornam o ciclo de vida de um vinho longo são vários e dependem de complexas e, até mesmo um pouco misteriosas, reações químicas, apesar de safra e terroir também entrarem na equação. Jancis Robinson cita o enólogo Pascal Chatonnet para explicar (a grosso modo, OK?) o que torna um vinho capaz de durar décadas dentro de uma garrafa e maravilhar você ao abrir: “A habilidade de limitar a oxidação é o fator central que determinada a aptidão para o envelhecimento. Nos tintos, o papel principal pertence aos polifenóis, nos brancos, são os ácidos.” (Vale a pena ler o artigo e a entrevista de Jancis Robinson, Unearthing the Secrets Of Age).

Não é tão simples assim, claro, mas uvas tânicas como Cabernet Sauvignon, Nebbiolo, Merlot, Tempranillos são favoritas, assim como Pinot Noir, Sangiovesi. Algumas uvas brancas, como Chardonnay, Riesling e Chenin Blanc também costumam produzir vinhos que envelhecem bem.

No entanto, a tendência é clara: os vinhos estão chegando nas prateleiras mais prontos. Ou seja, seu ciclo de vida é planejadamente curto, a grande maioria deve ser consumida imediatamente. Por que? Porque eles já atingiram todo seu potencial, o envelhecimento não iria acrescentar complexidades e sutilezas.

São maus vinhos? De forma alguma. Um grande vinho precisa de tempo, mas existem excelentes vinhos jovens. Abrir uma garrafa de 2018 talvez seja precipitação. Mas as safras de 2015 e 2016 produziram belos vinhos que já podem ser abertos. Evidentemente, são mais vibrantes e frutados do que sutis e complexos. Mas prontos para seus brindes!

Para descobrir quais a única receita é obter sempre o máximo de informação sobre o rótulo que você está comprando e experimentar...muito!

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