Safra: o documento de identidade do vinho

O que quer dizer o ano marcado no rótulo da garrafa de vinho que você tem aí na sua mão? É o ano em que a uva foi plantada? O ano em que foi colhida? O ano em que o vinho foi engarrafado?

Viu? A pergunta não tem nada de óbvia, ao contrário do que se pensa. O ano, marcado no rótulo, é sempre o ano em que a uva foi colhida. Não importa se a uva será colhida e logo engarrafada ou se o vinho vai envelhecer anos em barris antes de ser colocado em uma garrafa. O ano marca o momento da colheita. E é esse momento da colheita da uva que no fundo determina se aquela será uma boa safra ou não. Em Bordeaux, na França, e na Europa, de modo geral, em países como os EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, para poder colocar um determinado ano no rótulo, a garrafa precisa ter um percentual mínimo de uvas colhidas naquele ano que costuma variar entre 85% e 95%. Na América do Sul a exigência é de 75%.

Outras boas perguntas vão surgindo daí: o que pode mudar tanto de ano para ano? Que fatores interferem no vinho a ponto de torná-lo tão diferente em 365 dias?

E aqui a resposta também não é simples. A natureza. O tempo. A chuva ou a ausência de chuva. A geada inesperada, a neve fora de hora, o calor antes do tempo. A produção de vinhos é uma equação complexa e sofisticada que envolve técnicas e fazeres tradicionalíssimos com modernas tecnologias. No caso dos países da Europa, por exemplo, a safra é fundamental porque ela reflete exatamente as condições climáticas daquele período. Estações mais ou menos quentes fazem com que no tempo da colheita as uvas estejam mais ou menos maduras e mais ou menos doces, o que torna o vinho melhor ou pior.

Melhor ou pior? Sim, imagine que o vinho, cada vinho, precisa expressar da melhor forma possível as características do seu terroir e do seu estilo. Vem o tempo e mexe com a uva. Pronto, aquele vinho, naquele ano, vai ser uma expressão pálida do que poderia ser.

Claro, o produtor pode tentar controlar as condições climáticas, mas nem sempre. Embora um bom produtor possa melhorar muito o resultado, manipulando corretamente as uvas e usando técnicas de vinificação, tudo combinado com intuição, talento e conhecimento do seu território e das formas tradicionais de lidar com as condições climáticas de cada região. Um bom produtor, dizem, consegue fazer um bom vinho de uma uva medíocre. O contrário, no entanto, é também verdade: um mau produtor torna medíocre um vinho produzido com uvas impecáveis! Mas isso é outro post.

Entenderam o desafio? O tempo estimula e desafia os produtores. E esse desafio é ainda mais valorizado em alguns países. Na Europa, por exemplo, ninguém costuma irrigar as vinhas. É proibido! Um pouco como roubar no jogo! Deixar o tempo agir é a regra. E fazer o melhor possível é a arte. A mágica!

Na América, nem sempre a proibição existe. Nem poderia. Vinhos produzidos em regiões desérticas, como Mendoza, na Argentina e toda a região do Atacama, no Chile. Não tem como não irrigar. E com a irrigação, os produtores conseguem vinhos mais uniformes. Ou seja, falar de safra, quando se fala de vinhos destas regiões não tem a mesma importância. O ano da colheita continua, no entanto, a ser impresso no rótulo, para lembrar da mágica da ação do tempo na uva.

A SAFRA DAS SAFRAS

É assim que você vai ouvir falar da safra brasileira de 2020! Os produtores já tinham dado o entusiasmado sinal de alerta em março, mas a prova foi agora, na Avaliação Nacional de Vinhos - safra 2020, organizada pela Associação Brasileira de Enologia: 2020 é a melhor safra de todos os tempos no Brasil. 


“Nunca o Brasil, tanto vinícolas, quanto enólogos, esteve tão preparado tecnicamente, com profundo conhecimento, precisão na Viticultura e Enologia, para receber e processar uma matéria prima de tamanha qualidade”, afirmou o presidente da ABE, Daniel Salvador.  “Não se faz um vinho sozinho. E este ano, a mãe natureza fez a sua parte de forma esplêndida. Coube a nós, enólogos, ter a sensibilidade e o conhecimento suficientes para gerar o melhor vinho de nossas vidas. O seu vinho, o vinho brasileiro”, complementou em seu discurso na hora de divulgar os resultados. Vamos experimentar? 

Ah, e nem pense que 2020 é um caso único: leia A safra de 2018 no Brasil 

Mas exatamente que fatores contribuíram para 2018 ficar na memória de todos que gostam de um belo vinho?

Chuva na hora certa, na quantidade certa
Pode parecer contraditório, mas o fato de não chover excessivamente contribui diretamente para um melhor plantio. Isso porque a umidade em excesso pode ser um facilitador para o desenvolvimento de fungos e pragas. Neste ano, as chuvas do final da primavera e início do verão vieram na hora e na quantidade certas.

Nada de granizo ou geada
Assim como o calor, o frio em excesso pode queimar e danificar vinhedos inteiros! Ainda que as vinhas tenham certa tolerância ao frio, ondas repentinas interferem no crescimento saudável da uva. O inverno de 2017 foi dos mais amenos, o que, no extremo, também poderia criar problemas, mas a brotação foi vigorosa, um pouco mais cedo do que o esperado.

Pequena amplitude térmica
Sofrer com as diferenças entre as temperaturas num mesmo dia não é exclusividade de nós, humanos! O choque térmico contribui para a fragilidade do sistema imunológico das vinhas, deixando-as mais vulneráveis à pragas e doenças. A primavera foi amável com as uvas e protegeu-as dos altos e baixos de temperatura. A quantidade de flores pode ter sido menor, mas os frutos amadureceram saudáveis e sem doenças. E o verão quente e seco também ajudou na maturação perfeita das uvas. Os especialistas atribuem o fato ao fenômeno La Niña, que traz para o sul verões quentes e menos chuvosos.

Colheita noturna
Além do clima, a arte e o engenho dos produtores cria soluções no mínimo geniais: a fim de evitar altas temperaturas, a colheita e o desengaçamento (a retirada das uvas do cacho) de certas variedades de uvas brancas, mais delicadas, como a Sauvignon Blanc, foi realizada no período da noite, longe do sol! A ideia é que a estratégia preserve os aromas da variedade.

 

 

 

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